Olho no Olho

Entre a natureza e a ação humana

Aline Durães e Daniel Barros

Ilustra: Caio Monteiro

Os deslizamentos de terra que mataram mais de 50 pessoas e deixaram a marca da tristeza na cidade de Angra dos Reis no início deste ano suscitam uma questão: a tragédia é resultado da virulência da natureza ou fruto da irresponsabilidade humana?

Para Maria Gertrudes Alvarez, meteorologista do Instituto de Geociências (Igeo) da UFRJ, as chuvas fortes que devastaram a área na primeira madrugada de 2010 são fenômenos comuns e esperados no verão da região Sudeste. Ela pontua que a ocupação desordenada das encostas e a falta de planejamento urbano de longo prazo são os principais atores da tragédia de Angra dos Reis.

Já Marilene Ramos, secretária de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, em visita à UFRJ, no último dia 12, apresentou um relatório no qual o governo se compromete a formar um grupo de trabalho para dar apoio à prevenção de deslizamentos e enchentes. No documento, as autoridades compreendem serem imperiosos investimentos em sistemas de alerta e radares meteorológicos. Confira abaixo os depoimentos da meteorologista Maria Gertrudes e de Marilene Ramos na íntegra.

Maria Gertrudes Alvarez
Professora do Instituto de Geociências

“A maior parte dos governantes apenas reza para que não chova forte durante a sua gestão.”

“Sempre que acontece uma tragédia desse tipo, as pessoas colocam a culpa na chuva, mas nós já sabemos serem comuns, na região sudeste, as chuvas mais intensas nessa época do ano. Existe uma variabilidade: num ano, chove mais; no outro, menos. O agravante, e isso não é novidade, é a ocupação. Cada vez mais, as pessoas constroem casas em locais de risco.

Em 2002, aconteceu tempestade semelhante na cidade de Angra, que resultou em mortos e feridos também. Mas, depois de oito anos, as pessoas continuam a ocupar os mesmos lugares ou locais mais complicados ainda. E a chuva vem. Neste ano ela veio de novo, com intensidade alta, mas em nada diferente do que acontece há 100 ou 200 anos na nossa região.

Por a chuva ser localizada, tem como prever, mas para isso são necessárias equipes de alerta. Essas equipes devem estar a postos 365 dias por ano e 24 horas por dia. Devemos investir também em modelos numéricos que mostram a tendência de chuvas mais fortes para a região. À medida que se aproxima a chuva, são necessários métodos de observação mais precisos, como pluviômetros e radares meteorológicos, que informam, horas antes de acontecer, quanto vai chover e o local a ser atingido. Poucas cidades brasileiras, entretanto, possuem essas tecnologias. Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro são algumas delas. Se sabemos que existem condições meteorológicas adversas, podemos tomar providências, como retirar as famílias das áreas condenadas e fechar estradas que correm risco de desmoronar. Mas, na verdade, o que geralmente mobiliza, e mobilizou, por exemplo, as autoridades do Rio para montarem seus equipamentos são as vítimas.

A gente precisa ter um sistema de alerta e acompanhamento para atuar no momento do evento atmosférico. Deve haver também o mapeamento das encostas. Sabendo que são comuns as chuvas, temos que retirar a população e, na melhor das hipóteses, não permitir a construção de moradias nas  áreas comprometidas. Mas acontece que a maior parte dos governantes não atenta para essa questão, reza apenas para que não chova forte durante a sua gestão. O ponto positivo disso tudo é que, pela primeira vez, eu leio em jornais que os gestores da cidade e do estado estão inclinados a desocupar e derrubar casas irregulares.

Com o aquecimento global, aumentará a frequência de eventos extremos: vai haver chuvas de verão mais intensas, ondas de frio mais fortes, furacões mais violentos. Todas as pesquisas indicam essa tendência. Aqui na nossa região, esperamos a ocorrência de chuvas, que não vão acontecer, entretanto, da mesma maneira. Onde chove pode não chover e onde não chove podem ocorrer chuvas intensas. A temperatura do planeta está aumentando, mas não há ainda como determinar onde ficará mais quente e onde ficará mais frio. As pesquisas trabalham nisso atualmente. Na Conferência do Clima de Copenhague, o mundo perdeu a oportunidade de resolver as consequências do aquecimento, mas, ao mesmo tempo, deu um passo importante para isso. Mais cedo ou mais tarde, o consenso vai existir.”

Marilene Ramos
Secretária de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro

“Os técnicos desse grupo de trabalho serão envolvidos no mapeamento de áreas de risco em Angra dos Reis. Isso é compromisso.”

“As propostas apresentadas no relatório giram em torno da constatação que não existe no governo do Estado um endereçamento ao problema dos deslizamentos. Inicialmente, o nosso objetivo é resolver este problema, lembrando que a ocupação de encostas é alçada da prefeitura, não é responsabilidade do governo do Estado.

No entanto, formaremos um grupo de trabalho para dar apoio à prevenção de deslizamentos e enchentes, para reduzir esse risco. Entre as sugestões apresentadas está o treinamento de gestores públicos para lidar com essas questões, o trabalho com a questão de educação ambiental da população, a implantação de sistemas de monitoramento de áreas de risco e a aquisição de radares meteorológicos. Eu, como secretária de Meio Ambiente, posso me comprometer a iniciar de forma prática algumas dessas sugestões.

Em primeiro lugar, os técnicos desse grupo de trabalho serão envolvidos no mapeamento de áreas de risco de deslizamento de encostas e inundações e na implantação de um sistema de monitoramento em Angra dos Reis. Isso é compromisso, pois está no âmbito da secretaria.

O sistema de alerta previsto para Angra será feito com recursos do Estado do Rio de Janeiro. Mas esse grupo de trabalhos também poderá ajudar a captar recursos para pôr em prática outras sugestões. Hoje, muitos municípios têm a dificuldade técnica de elaborar propostas para o governo federal.

Quanto aos radares meteorológicos, três são necessários para cobrir todo o estado, e esses radares são do interesse de empresas como a Petrobras, Furnas etc. Assim, um consórcio com essas empresas seria também uma possibilidade para a aquisição desses radares.
Outra questão importante é a utilização de imagens de satélite para fiscalizar a ocupação irregular do solo.

Falar em uma ‘Geo-Rio estadual’ é ainda muito cedo. Há, atualmente, certa escassez de técnicos. É difícil atrair técnicos para trabalhar fixamente em um projeto. Talvez esse grupo de especialistas possa atrair outros profissionais. E também queremos evitar o longo processo para contratar novos funcionários. Por exemplo, levamos dois anos para criar o Inea e hoje, após um ano de sua criação, ainda há dificuldades.”

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